O acidente
Abril 26, 2008 às 8:37 pm (Riscos)
Tags: acidente, chuva, morte
O carro perseguia na estrada molhada o desejo de voltar para casa. O ponteiro pouco passava dos 80km/h. A vontade de ver aquelas paredes brancas - de poder abraçá-las - multiplicava com o avançar do conta-quilómetros digital.
O pé direito tornava-se cada vez mais teimoso. O ponte![]()
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iro subia. Aumentava a ânsia. Mas aquela curva fechada e manhosa pregara-lhe uma partida. O carro deixara de obedecer para deslizar sem rumo no pavimento escorregadio.
A chuva intensa não lhe permitia visualizar a trajectória - ou era o súbito alheamento das coisas que o rodeavam quando ele já adivinhava o que iria suceder. Nada havia a fazer. Um camião vinha em sentido contrário.
Amo-te, Susana.
A chuva deixara de cair. Miguel tem sede, muita sede. Leva a mão direita à testa e limpa o sangue que jorra. Sede. Muita sede. Mas agora já não chove.
Silêncio.
Andreia Pinto
Andreia Pinto disse,
Abril 26, 2008 às 9:05 pm
Este pequeno episódio não teve origem apenas na minha imaginação. Estive perto de um acidente fatal em muito semelhante ao que descrevo.
Porque há coisas que nos deixam a pensar no sentido (ou na ausência de sentido) da vida…
Basilisco disse,
Abril 27, 2008 às 8:54 pm
A vida tem sentido! Não podemos quebrar todas as regras, tudo tem o seu limite. Devemos aproveitar o melhor da vida. Devemos dizer sempre o que sentimos.
Nuno Anjos disse,
Abril 28, 2008 às 11:17 am
Epá o que posso dizer sobre esse texto é:
Se Chover conduza devagar e DEVAGAR se VAI ao LONGE !!!
Ficção ou realidade, é um texto que só me faz lembrar como muita gente é IRESPONSAVEL ao Volante.
A pressa de chegar num dia de chuva deve ser traduzida numa velocidade que nos assegure chegarmos vivos e não num saco de plastico.
Mas gostei do texto, só acho que não se deve ter pena de quem não pensa nos outros e é egoista ao ponto de se matar numa estrada porque quer chegar mais cedo a casa.
Andreia Pinto disse,
Abril 28, 2008 às 11:38 am
Nuno, longe de mim ter pena dos que não têm nenhuma responsabilidade na estrada.
Apenas queria mostrar aqui o facto de, muitas vezes, as pessoas não terem consciência do perigo que correm.
Quase nunca nos lembramos de quão frágil é a vida humana.
mary disse,
Abril 30, 2008 às 8:30 pm
Mas eu tenho pena mesmo dos irresponsaveis…
E se o Miguel não tivesse a possibilidade de morrer a cada segundo que vive não teria pressa de chegar a casa.
Marta Gonçalves disse,
Maio 5, 2008 às 9:58 am
Nunca estive envolvida num acidente grave. Mas não preciso dessa experiência para saber o quão frágil é a vida. Todos passamos por experiências diferentes que nos levam a uma única certeza: há que ter cautela, mas vivendo um dia de cada vez. Quem sabe, como se fosse o último…
Bjinhos.
P.S. Adorei o texto.
P.S.2. Espero que depois dessa tua experiência tenhas ficado bem.