O acidente

O carro perseguia na estrada molhada o desejo de voltar para casa. O ponteiro pouco passava dos 80km/h. A vontade de ver aquelas paredes brancas - de poder abraçá-las - multiplicava com o avançar do conta-quilómetros digital.

O pé direito tornava-se cada vez mais teimoso. O ponteiro subia. Aumentava a ânsia. Mas aquela curva fechada e manhosa pregara-lhe uma partida. O carro deixara de obedecer para deslizar sem rumo no pavimento escorregadio.

A chuva intensa não lhe permitia visualizar a trajectória - ou era o súbito alheamento das coisas que o rodeavam quando ele já adivinhava o que iria suceder. Nada havia a fazer. Um camião vinha em sentido contrário.

Amo-te, Susana.

A chuva deixara de cair. Miguel tem sede, muita sede. Leva a mão direita à testa e limpa o sangue que jorra. Sede. Muita sede. Mas agora já não chove.

Silêncio.

Andreia Pinto

6 Comentários

  1. Andreia Pinto disse,

    Abril 26, 2008 às 9:05 pm

    Este pequeno episódio não teve origem apenas na minha imaginação. Estive perto de um acidente fatal em muito semelhante ao que descrevo.

    Porque há coisas que nos deixam a pensar no sentido (ou na ausência de sentido) da vida…

  2. Basilisco disse,

    Abril 27, 2008 às 8:54 pm

    A vida tem sentido! Não podemos quebrar todas as regras, tudo tem o seu limite. Devemos aproveitar o melhor da vida. Devemos dizer sempre o que sentimos.

  3. Nuno Anjos disse,

    Abril 28, 2008 às 11:17 am

    Epá o que posso dizer sobre esse texto é:

    Se Chover conduza devagar e DEVAGAR se VAI ao LONGE !!!

    Ficção ou realidade, é um texto que só me faz lembrar como muita gente é IRESPONSAVEL ao Volante.

    A pressa de chegar num dia de chuva deve ser traduzida numa velocidade que nos assegure chegarmos vivos e não num saco de plastico.

    Mas gostei do texto, só acho que não se deve ter pena de quem não pensa nos outros e é egoista ao ponto de se matar numa estrada porque quer chegar mais cedo a casa.

  4. Andreia Pinto disse,

    Abril 28, 2008 às 11:38 am

    Nuno, longe de mim ter pena dos que não têm nenhuma responsabilidade na estrada.
    Apenas queria mostrar aqui o facto de, muitas vezes, as pessoas não terem consciência do perigo que correm.
    Quase nunca nos lembramos de quão frágil é a vida humana.

  5. mary disse,

    Abril 30, 2008 às 8:30 pm

    Mas eu tenho pena mesmo dos irresponsaveis…

    E se o Miguel não tivesse a possibilidade de morrer a cada segundo que vive não teria pressa de chegar a casa.

  6. Marta Gonçalves disse,

    Maio 5, 2008 às 9:58 am

    Nunca estive envolvida num acidente grave. Mas não preciso dessa experiência para saber o quão frágil é a vida. Todos passamos por experiências diferentes que nos levam a uma única certeza: há que ter cautela, mas vivendo um dia de cada vez. Quem sabe, como se fosse o último…

    Bjinhos.

    P.S. Adorei o texto.
    P.S.2. Espero que depois dessa tua experiência tenhas ficado bem.

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