Ela conduzia. A seu lado, eu viajava com a alma inquieta. Perguntei-lhe, Pensas na morte. Enquanto olhava para os seus olhos castanhos, por momentos desviados da rota do automóvel, tentava descobrir uma ponta de insegurança. Porém, aqueles olhos perdidos no silêncio do motor retomaram a sua tarefa. Fugiste, pensei, porque também tens medo.
Todos morremos um dia, disse-lhe. E parece que a minha mãe já sabia.
A pele, um dia jovem, entra agora num Outono inadiável. Os olhos claros tornam-se maiores, não em tamanho, mas em profundidade. São muitos os dias em que eles se abriram para ver as coisas do mundo, as boas e as más. E agora os olhos vêem cada vez mais. Assim é a natureza do homem, ver pouco enquanto jovem, mas ir aperfeiçoando os sentidos graças à capacidade de acumular experiências, principalmente as más. Se pensarmos bem, é o sofrimento que nos faz avançar, tanto ao homem como à própria História universal. Estas ideias assaltavam a minha mãe enquanto conduzia como um autómato.
Penso muitas vezes nisso, respondeu finalmente. Tenho medo de morrer.
AP
cristina disse,
Fevereiro 7, 2008 às 11:03 am
Gostei! Tens sem duvida muito jeito!
beijinho***
Marta disse,
Fevereiro 11, 2008 às 10:21 pm
Acho que todos temos esse medo, não é… E, no entanto, é algo que já sabemos que irá acontecer um dia.
A morte só me começou a assustar depois de a minha amiga ter morrido.
Gostei da reflexão. Disseste aquilo que todos pensamos mas que muitos têm medo de dizer. Todos temos medo de morrer.