Para onde vamos?

“Por que corremos

e avançamos

com os olhos fitos

na ausência de um lugar

ou num infinito

sempre adiado?”

Paula Margarida Pinho, in Sistema Solar

Tributo à PMP, cujas palavras estão sempre presentes.

photo by cageybee_47

Foto do dia

by bill.fu

A Rapariga que Roubava Livros

A Rapariga que Roubava LivrosPor que é que este livro permaneceu 40 semanas no top dos mais vendidos do New York Times? Foi para satisfazer a curiosidade que me aventurei nas páginas de um livro cujo título nunca me cativou.

The Book Thief, título original do livro escrito por Markus Zusak, conta a estória de uma menina chamada Liesel durante o período da Segunda Grande Guerra, na alemanha nazi. “Heil, Hitler”, cruzes suásticas, abrigos anti-aéreos, judeus perseguidos, medo e fome são presença constante ao longo de 462 páginas.

Foi no dia do funeral do irmão que Liesel roubou o seu primeiro livro, Manual do Coveiro. Separada da mãe e junto da sua família de acolhimento, a rapariga cresce com o acordeão do “papá” e os “saumensch”/”saukerl” da nova mãe, os jogos de futebol na rua, o amigo Rudy, os livros roubados, o judeu escondido na cave…

O livro marca mais pelos factos que descreve acerca dos horrores da guerra do que pela estória dos livros roubados, o que vai contra o que sugere o título: “Era o melhor sítio, tinham eles decidido. É mais difícil encontrar um judeu no escuro. Sentado na sua mala, à espera. Há quantos dias já? Comera apenas o gosto amargo do seu próprio bafo faminto durante o que lhe pareciam semanas, e ainda nada.”(p.122)

Outro ponto forte é o facto de a narradora omnisciente ser a própria Morte (faz lembrar As Intermitências da Morte, de Saramago, mas numa versão menos elaborada): “Um humano não tem o coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e eu possuo a interminável capacidade de estar no sítio certo na altura certa (…) Ainda ssim, eles têm uma coisa que eu invejo. Os humanos, quanto mais não seja, têm o bom senso de morrer” (p.413).

Na verdade, o livro pode até ser marcante, como diz o Washington Post, mas não chega a tornar-se um clássico.

Andreia Pinto

Viva o Verão!

Summer

Bem sei que o Verão começou no dia 21, mas só agora encontrei a fotografia ideal para celebrar a chegada da nova estação! É tempo de saltar, dançar, brincar, respirar…

Eu gosto do Verão. Dá vida e traz alegria.

A Guerra dos Tronos

Ando um pouco ocupada com a faculdade, mas lá consegui arranjar um tempinho para ler A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Nem todas as obras de fantasia são do meu agrado, mas como me recomendaram As Crónicas de Gelo e Fogo, aproveitei logo a Feira do Livro para comprar o primeiro volume da saga.A Guerra dos Tronos

Não posso dizer que o livro é maravilhoso. Se estava à espera de mais? Sim, talvez. Mas apesar de as minhas expectativas terem sido demasiado elevadas, tenho de confessar que fiquei com uma imagem muito positiva desta obra.

Castelos, neve, florestas assombradas, assassínios e segredos… Quem não fica rendido a estes ingredientes? Além disso, a escrita é fluente e rica e as personagens são muito bem caracterizadas.

É para continuar a ler!

Andreia Pinto

O Barco Azul

Low Tide - HDR Vertorama

by DanielKHC

pink

Reflexos

Dreaming

by nicolas valentin

Uma boa imagem é aquela que tem o poder de nos transportar para além dos nossos limites. Esta fotografia faz-me sonhar com o passado, pelos tons claros de serenidade, mas também com um futuro que as nuvens teimam em ocultar.

Os reflexos são, talvez, o que mais valoriza o conjunto. As sombras distorcem o real, mas recordam-nos que a verdadeira razão de existirem está muito perto delas. As sombras fazem parte das árvores; o que fazemos faz parte de nós.

Andreia Pinto

A Catedral do Mar

Acabei ontem de ler A Catedral do Mar. Nenhum outro livro poderia ser melhor para inaugurar esta nova categoria de Sugestões de Leitura . O autor, Ildefonso Falcones de Sierra, conseguiu, apenas por palavras, fazer o leitor imaginar todos os cenários e personagens com uma riqueza pictórica e emotiva que provoca inveja a muitos filmes.

A Catedral do Mar

O enredo é de tal forma bem estruturado que prende o leitor desde a primeira palavra à última letra. O primeiro capítulo é dos mais perturbantes que alguma vez li, não só pela forma como os acontecimentos são narrados, mas sobretudo porque nos faz pensar na crueldade e no absurdo que há no ser humano.

O enquadramento histórico em torno da construção da catedral de Santa María del Mar, em Barcelona, revela muito trabalho de investigação por parte do autor e, mais do que isso, a sua entrega total a este livro. Parece que Falcones se incluiu nas suas próprias páginas.

Ler A Catedral do Mar é fazer uma viagem pelas ruas de uma Barcelona medieval próspera e doente, num cenário de paixão e violência, perseguição e intriga, com a marca da Inquisição. É especialmente percorrer os caminhos intrínsecos da mente dos seus habitantes.

Andreia Pinto

Foto do dia

By FlyingDevice

by FlyingDevice

Grãos alheios VII

“Os erros são tolerados desde que não se repitam.”

Steve Berry

O acidente

O carro perseguia na estrada molhada o desejo de voltar para casa. O ponteiro pouco passava dos 80km/h. A vontade de ver aquelas paredes brancas - de poder abraçá-las - multiplicava com o avançar do conta-quilómetros digital.

O pé direito tornava-se cada vez mais teimoso. O ponteiro subia. Aumentava a ânsia. Mas aquela curva fechada e manhosa pregara-lhe uma partida. O carro deixara de obedecer para deslizar sem rumo no pavimento escorregadio.

A chuva intensa não lhe permitia visualizar a trajectória - ou era o súbito alheamento das coisas que o rodeavam quando ele já adivinhava o que iria suceder. Nada havia a fazer. Um camião vinha em sentido contrário.

Amo-te, Susana.

A chuva deixara de cair. Miguel tem sede, muita sede. Leva a mão direita à testa e limpa o sangue que jorra. Sede. Muita sede. Mas agora já não chove.

Silêncio.

Andreia Pinto

À procura da beleza

Será a beleza a utilidade das coisas inúteis?

AP

Grãos alheios VI

“If we had no winter, the spring would not be so pleasant; if we did not sometimes taste of adversity, prosperity would not be so welcome.”

Anne Bradstreet

Chove na minha janela

Está a chover desalmadamente na minha janela, no meu telhado, neste abrigo quente e sedoso.

Está mesmo a chover, não é metáfora nem eufemismo. São gotas de água furiosas que batem nos vidros com tanta impetuosidade que parece que se vai hoje apocalipsar o mundo.

Ver a tempestade a partir do meu ninho dá-me muita satisfação. É como se este tecto fosse eterno e imune a todas as desventuras que há lá fora. Aqui, neste refúgio, não há crianças a morrer de fome, nem glaciares em degelo, nem assassinos gratuitos, nem o preço do petróleo a subir.

Há apenas gotas de água furiosas que batem nos vidros com tanta impetuosidade que parece que se vai hoje apocalipsar o mundo.

Xiu. Oiçam apenas. Plic, plic, plic…

A chuva não cessa, mas tudo continua igual lá fora.

Pouso o Eclipse e o sofá vai ficando para trás à medida que me aproximo da janela. Agora só a água a escorrer e eu a lavar as minhas memórias.

AP

Manual do criador

Uso as palavras para combinar sons saídos de qualquer parte. Deixo os sons gravados numa folha de papel. Manipulo os ouvidos e os dedos. Quero aprisionar a cadência regular do fluxo vital que corre nas veias da natureza.

O meu fim é manipular a alma.

Um criador manda na alma e nas coisas. Um criador sabe o bem e o mal, o necessário e o inútil. Brincar com as palavras e com os sons é tarefa fácil para ele.

Mas um criador sabe que não pode desperdiçar as palavras. Cada letra tem um valor difícil de recuperar. Por isso, o criador deixa assentar a impetuosa vontade que lhe rouba o Norte por instantes breves e só depois começa o seu trabalho. Cada letra escrita fica para sempre marcada nas páginas do tempo.

AP

Grãos alheios V

                                    Fire and Ice

Some say the world will end in fire,

Some say in ice.

From what I’ve tasted of desire

I hold with those who favor fire.

But if it had to perish twice,

I think I know enough of hate

To say that for destruction ice

Is also great

And would suffice.

                                                    Robert Frost

Grãos alheios IV

“Acredito sinceramente ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem.”

Laurence Sterne

Uma família no dia de Carnaval

familia.jpg

Tempo que passa

tempo-q-passa.jpg
by Andreia Pinto
As coisas vão perdendo brilhos, ganhando novos sentidos.
Umas pessoas ficam sábias, outras morrem aos poucos.
Tudo muda. Eu própria já não sou a mesma.
AP

A morte

Ela conduzia. A seu lado, eu viajava com a alma inquieta. Perguntei-lhe, Pensas na morte. Enquanto olhava para os seus olhos castanhos, por momentos desviados da rota do automóvel, tentava descobrir uma ponta de insegurança. Porém, aqueles olhos perdidos no silêncio do motor retomaram a sua tarefa. Fugiste, pensei, porque também tens medo.

Todos morremos um dia, disse-lhe. E parece que a minha mãe já sabia.

A pele, um dia jovem, entra agora num Outono inadiável. Os olhos claros tornam-se maiores, não em tamanho, mas em profundidade. São muitos os dias em que eles se abriram para ver as coisas do mundo, as boas e as más. E agora os olhos vêem cada vez mais. Assim é a natureza do homem, ver pouco enquanto jovem, mas ir aperfeiçoando os sentidos graças à capacidade de acumular experiências, principalmente as más. Se pensarmos bem, é o sofrimento que nos faz avançar, tanto ao homem como à própria História universal. Estas ideias assaltavam a minha mãe enquanto conduzia como um autómato.

Penso muitas vezes nisso, respondeu finalmente. Tenho medo de morrer.

AP

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